Estava lendo um livro que foi lançado há pouco chamado ‘Suicídio: um futuro interrompido’. Após trinta anos de vida tive a coragem de mergulhar neste universo de uma forma menos didática. E nas primeiras páginas do livro, pude ‘ler-me’; parecia que eu escrevia aquilo. Fui a segunda filha adotiva de um casal de Advogado e de Dona de casa, cuja ocupação maior era ser socialite. Engraçado como souberam tratar a questão da adoção tão naturalmente, porque para mim de fato é natural. Não lembro-me do dia que contaram, acho que porque ele nunca existiu. Somente me recordo que sempre que perguntava ouvia a seguinte explicação: ‘você não nasceu daqui (e ela apontava para a barriga), mas daqui (e apontava para o coração)’. Era muito delicado esse jeito de falar sobre a adoção e de fazer com que uma criança de quatro anos a entendesse de maneira tão bonita. Óbvio que ao longo de minha vida descobri alguns detalhes a mais, mas até certo ponto, tal explicação era suficiente e satisfatória.
Como dizia, era a segunda filha do casal: um ano e onze meses mais nova que meu irmão. Impressionante era como ele sabia roubar a cena e a atenção de minha mãe. E mais impressionante era que quanto mais ele aprontava, mais eu me calava. A asma era meu porto seguro: ali sim recebia a atenção e o carinho que realmente queria. Tenho crises até hoje, confesso. E já as utilizei até bem grandinha como uma forma de chamar a atenção. Mas quando li no tal livro essa maneira um tanto infantil e egoísta de conseguir o monopólio do amor caí na real e vi o quão ridícula conseguia ser.
Depois da asma, e de muita coisa guardada, veio a depressão. Esta de forma muito silenciosa, mas arrebatadora. E então, aos 22 anos, meu porto seguro foi tomar um tanto de remédios e aí de novo atrair muita atenção e carinho. Bom, mas isso é assunto pra outro post...
A questão é que apesar desses longos trinta anos, creio que tenho muitos portos seguros para descobrir e, mais difícil ainda, para superar . Deixar o barco a revelia ainda é muito difícil, pois da última vez que o deixei navegar sem me preocupar aonde ancorá-lo, foi quando perdi minha mãe. Ter certeza de que tenho o controle da situação sempre me dá a sensação de conforto e de segurança. Mas, a maturidade me faz enxergar que nada é certo e permanente na vida... é preciso navegar em águas calmas, passar por tormentas, olhar para frente e entender que o horizonte guarda surpresas boas e ruins. Depositar expectativas ou tentar fantasiar um futuro é deixar de enxergar o que nos cerca.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário