segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Semana passada assisti a um daqueles vídeos disponíveis no You Tube: um discurso do Steve Jobs (um dos fundadores da Apple e da Pixar) para formandos da universidade de Stanford. Creio que alguns já assistiram (caso ainda não tenha assistido, vale a pena). A questão que ele levanta, essencial à nossa capacidade de superação, é a vontade de seguir adiante e a fé que precisamos para acreditarmos que tudo dará certo, independente do contexto em que nos encontramos.
Eu tinha apenas 12 anos quando minha mãe se foi... Naquele momento, minha capacidade de discernimento entre o real e o fictício era quase que nula. Durante uns seis meses sonhava praticamente toda a noite, que ela estava retornando à nossa casa de uma breve viagem que havia feito de última hora. Fantasias à parte, o fato é que a realidade era insuportável demais pra minha cabecinha... inventá-la era a maneira mais fácil e acessível de suportá-la. Acreditar que tudo aquilo era verdade significava perder toda a minha concepção de vida e encarar que teria que refazê-la, por mais duro e assustador que isso poderia ser.
Então parei no tempo... vivi uns dois anos como não houvesse ontem, hoje e muito menos amanhã. Não me lembro de praticamente nada. Depois vim a descobrir que isso se chamava memória seletiva: quando vivenciamos uma situação muito traumática, nosso cérebro trata de ativar um mecanismo de auto defesa e acabamos por armazenar aquela lembrança tão difícil num lugar que nem nós mesmos sabemos.
Minha fé se perdeu, assim como eu. Resgatá-la foi uma das tarefas mais difíceis da minha vida. Foram anos e anos de muita omissão, luta e de muita terapia pra descobrir que ela estava logo aqui, e que só podia enxergá-la quando aceitasse que por trás da sombra, havia a luz, por trás da noite, havia o dia. Assim como disse Steve Jobs no tal vídeo, se não acreditarmos e tivermos fé não teremos a base, o alicerce pra continuarmos aqui neste mundo. Vi minha mãe perder esta fé desde muito nova... e entendo como a vida deve ser insuportável quando somos incapazes de acreditarmos em nós mesmos.
Hoje, apesar de ‘titubear’ em determinadas situações, não me permito perder a crença de que existe algo maior que eu... não me permito atuar como vítima. Histórias como a minha acontecem por um motivo. E acreditar nisso é, antes de tudo, aceitar que temos um papel neste mundo e deixar que cada momento seja único, que cada gesto, por menor que seja, seja pleno em significância e valor.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Primeiro

Estava lendo um livro que foi lançado há pouco chamado ‘Suicídio: um futuro interrompido’. Após trinta anos de vida tive a coragem de mergulhar neste universo de uma forma menos didática. E nas primeiras páginas do livro, pude ‘ler-me’; parecia que eu escrevia aquilo. Fui a segunda filha adotiva de um casal de Advogado e de Dona de casa, cuja ocupação maior era ser socialite. Engraçado como souberam tratar a questão da adoção tão naturalmente, porque para mim de fato é natural. Não lembro-me do dia que contaram, acho que porque ele nunca existiu. Somente me recordo que sempre que perguntava ouvia a seguinte explicação: ‘você não nasceu daqui (e ela apontava para a barriga), mas daqui (e apontava para o coração)’. Era muito delicado esse jeito de falar sobre a adoção e de fazer com que uma criança de quatro anos a entendesse de maneira tão bonita. Óbvio que ao longo de minha vida descobri alguns detalhes a mais, mas até certo ponto, tal explicação era suficiente e satisfatória.
Como dizia, era a segunda filha do casal: um ano e onze meses mais nova que meu irmão. Impressionante era como ele sabia roubar a cena e a atenção de minha mãe. E mais impressionante era que quanto mais ele aprontava, mais eu me calava. A asma era meu porto seguro: ali sim recebia a atenção e o carinho que realmente queria. Tenho crises até hoje, confesso. E já as utilizei até bem grandinha como uma forma de chamar a atenção. Mas quando li no tal livro essa maneira um tanto infantil e egoísta de conseguir o monopólio do amor caí na real e vi o quão ridícula conseguia ser.
Depois da asma, e de muita coisa guardada, veio a depressão. Esta de forma muito silenciosa, mas arrebatadora. E então, aos 22 anos, meu porto seguro foi tomar um tanto de remédios e aí de novo atrair muita atenção e carinho. Bom, mas isso é assunto pra outro post...
A questão é que apesar desses longos trinta anos, creio que tenho muitos portos seguros para descobrir e, mais difícil ainda, para superar . Deixar o barco a revelia ainda é muito difícil, pois da última vez que o deixei navegar sem me preocupar aonde ancorá-lo, foi quando perdi minha mãe. Ter certeza de que tenho o controle da situação sempre me dá a sensação de conforto e de segurança. Mas, a maturidade me faz enxergar que nada é certo e permanente na vida... é preciso navegar em águas calmas, passar por tormentas, olhar para frente e entender que o horizonte guarda surpresas boas e ruins. Depositar expectativas ou tentar fantasiar um futuro é deixar de enxergar o que nos cerca.